Cirque du Soleil: eu estive lá. No palco. Realizando um sonho.

milho baunilhaFala galerinha do mal. Como é que cês tá?

Vindo aqui para compartilhar algo que fora pra mim uma das maiores experiências da minha “life”. Não somente o fato de ter realmente ter feito parte de uma das maiores trupes do mundo mas também de ter realizado um sonho.

Comecei o circo porque assisti a um dvd do Cirque du Soleil quando tinha 15 anos e nesse mesmo momento, prometi a mim mesmo que um dia estaria ali, sendo aplaudido por todos.

Foram 10 anos enviando vídeos. 10 anos de espera. 10 anos tentando…

Aqui está o resultado:

Sonhos são realizáveis. Acredite!

Você enfrentará momentos muito difíceis. É exatamente aí que deve manter-se forte e determinado.

Escutei e ainda escuto de algumas pessoas que o que desejo é loucura.

Desejo ser grande como Michael Jackson.

(sei que você está rindo agora).

Na verdade, se você rir dessa frase, é porque não acredita que sonhos são possíveis. Infelizmente, tenho pena de você.

A maioria das pessoas vive uma inércia sem tamanho. Acostumaram-se com pouco ou quase nada. Não exploram sua verdadeira capacidade.

Eu tinha um sonho. Percebi que era maior do que esse sonho. Quero mais. Vou além. Quero ir até o limite do meu limite.

Quando você tira o sonho do plano mental e o coloca no real, mesmo que o realize um pouquinho todo dia, não é mais de um sonho que se trata e sim de um OBJETIVO.

Não sou bailarino ou cantor como Michael. O que quero é chegar a 5% do poder que esse cara tinha no palco. Se você vir o clipe abaixo, verá como o público se comporta com a presença do rei:

Todo dia realizo um pouquinho mais meu sonho porque QUERO, POSSO E CONSEGUIREI.

Segue um texto de Rubens Corrêa à todos os artistas iniciantes ou já na estrada.

Este texto serviu de grande base para todo o meu trabalho. Tive a oportunidade de lê-lo logo após minha formação como ator estudando o método Stanislaviski. Na época achava que “o método” era o único e melhor caminho a ser seguido. Quando li “O cálice, o cavalo, o fogo e o menino”, entendi o que o grande mestre “Stanis” queria dizer com “não existe receita, apenas direção”.

Muitos atores, criadores, escritores, enfim, artistas, têm algo de significativo para acrescentar ao mundo da arte.

Não existem idéias ou caminhos ruins. Às vezes elas estão apenas deslocadas.


Recado aos jovens da CAL (Rubens Corrêa)
 
Fui convidado para conversar com vocês sobre o ator; sei que muitos aqui jamais representaram, e outros deram apenas os primeiros passos neste caminho labiríntico que é o mundo da interpretação.  É uma tarefa que exige de mim sensibilidade e coragem; acho uma grande responsabilidade falar aos jovens, e é com muita emoção e prazer que passo adiante as humildes sementes do meu trabalho artístico, com a esperança de que alguma utilidade possa ser encontrada nelas e que de alguma maneira elas possam lhes tornar a caminhada menos solitária e mais solidária, na medida em que esta receita muito pessoal provoque dúvidas e reconsiderações, ou toque o sagrado dentro de cada um de vocês, ou reacenda aquela esperança cega que Prometeu garantiu ser a conquista mais urgente para a sobrevivência do homem neste planeta.O grande poeta e dramaturgo alemão Büchner escreveu numa cena de sua peça “Woyseck”:  “Cada ser humano é um abismo e a gente tem vertigens quando se debruça sobre um deles.”

Acho que nós atores somos duplamente esse abismo-espelho: como seres humanos e como artistas.  Nossa missão é provocar vertigem e o revisionamento do abismo dentro de cada espectador, para que depois de cada mergulho em nossos personagens-propostas essas pessoas pensem, se emocionem, compreendam e amem com nova e maior intensidade.

Eu, Rubens Corrêa, ator e artista de teatro, vinte e oito anos de profissão, e séculos e mais séculos de um longo período não sei onde, ofereço a vocês com apaixonada humildade o meu aprendizado nesta caminhada em cima das brasas sem se queimar que é a condição necessária para poder representar e viver com algum significado neste nosso bizarro país sul-americano.
(…)

O CÁLICE

Representar para mim é a possibilidade que me foi dada de me comunicar com o meu semelhante através de uma troca de idéias, imagens, palavras, gestos e emoções.  Um divertido, fascinante, e muitas vezes cruel jogo que mistura ficção e realidade, consciente e inconsciente, sagrado e profano, amor e ódio, vida e morte.  Uma Paixão.

Através dos anos venho elaborando em cima das tábuas o meu trabalho, tentando sempre o difícil equilíbrio entre as conquistas técnicas e a simplicidade da execução.  Aqueles instantes, todas as noites, em que represento um papel, são sempre os melhores momentos do meu dia.  Isso quer dizer que levo para o palco meus sentimentos, minha idéia, minhas alegrias, meus abismos, meu horror e minha luz.  Diariamente filtro essas emoções através das necessidades de cada personagem, e recebo de volta para mim mesmo uma nova compreensão de meus problemas – e acrescento ao personagem um novo enriquecimento conseguido “à quente”, quer dizer, arrancado de dentro de mim mesmo.

Com o correr dos anos fui aprendendo a me observar como artista e ser humano, e fui tentando aproveitar em meus desenhos interpretativos a linguagem interior de minha vivência pessoal, para conseguir assim essa difícil união entre arte e vida, que foi sempre a minha grande aspiração.

Sempre acreditei que cada ator traz consigo um material fantástico, inimitável e único, muito difícil de ser conservado e desenvolvido nesta nossa era brutalizada e massificada.

É um cálice de cristal interior, que deve ser preservado e defendido através de muitos terremotos, muita contrariedade, muita decepção e sensação de abandono, mas com momentos também de enorme luminosidade que quando acontecem recompensam o artista e engrandecem o ser humano.

Cada ator é único e inimitável se ele mergulha com honestidade em si mesmo, e retrata o seu semelhante com generosidade, verdade e paixão.  “Somos feitos da essência com que os sonhos são feitos” escreveu Shakespeare, e essa é a melhor definição que conheço sobre o mistério da representação.

O CAVALO

Cada ator tem obrigação de zelar e desenvolver o seu instrumental – sua voz, seu corpo: seu cavalo.  Devemos transformar nosso corpo num grande arquivo de imagens com possibilidades de serem utilizadas em nossos futuros personagens; nossa voz deve poder miar, rugir, gemer, uivar – nossas mãos podem ser galhos de árvores, garras de feras, folhas secas ao vento – nossos pés, colunas de um templo, patas de animais.  Nossos olhos devem poder reproduzir o enigma do olhar da esfinge, e a clareza cristalina de um poema de Brecht.

E mais, devemos nos preparar para poder receber com artística mediunidade a alma do mundo, as grandes interrogações do nosso tempo, a voracidade deste universo em constante transformação.

Devemos ser suficientemente fortes para poder reproduzir simultaneamente a maravilha e o horror do ser humano, a criatividade e a autodestrutividade de nós todos, homens, através desta difícil caminhada da vida.

O nosso cavalo deve então se preparar para poder assumir todas estas formas, e por isso ele tem de ser constantemente reabastecido e renovado.

O cavalo é também o estimulador de nossa energia, o conservador de nosso entusiasmo e de nossa fé; quando as crises vierem (e não tenham dúvida de que elas virão), nada melhor do que trabalhar na fortificação do cavalo, porque no mínimo estaremos crescendo durante a crise, estaremos trabalhando e temperando novas energias, adquirindo novas técnicas, novos conhecimentos.  Podem ter certeza de que um bom cavalo torna o ator indestrutível.

O FOGO

O fogo através do tempo sempre foi o símbolo vivo da fé, do entusiasmo e da rebeldia; mantê-lo aceso dentro de nós é também um trabalho para a vida inteira.  O fogo nasce de um estado de curiosidade natural e instintivo e pode ser desenvolvido através da conquista progressiva de uma cultura geral, de uma observação apaixonada da história do homem, da história de todas as artes, da emocionante história do teatro – e um profundo sentimento de observação do ser humano – aqueles para quem realizaremos nossas mágicas, o nosso público.  Esse fogo interno, uma espécie de grande rol central de energia e fé, é uma grande defesa contra a acomodação, e me parece ser a grande mola propulsora da criatividade; devemos estar sempre atentos aos seus chamados, e é preciso não deixar nunca, custe o que custar, esse fogo esmorecer, porque, caso isso aconteça, seremos os artífices de uma arte morta, sonâmbula, inútil, feia e resignada.

O MENINO

A recuperação da liberdade da infância através da vida adulta foi sempre uma das minhas metas; a criança é uma fonte incrível de informação artística – e a criança que nós fomos recuperada através do nosso lado lúdico tão atrofiado pelo correr dos anos – pode nos servir de guia, mas um guia muito especial, que caminha alegre e despreocupado, que sabe descobrir o mágico dentro do cotidiano, intuitivamente

Um grande exemplo da presença do menino dentro de um artista está na figura e na obra do pintor Pablo Picasso.  “Eu não procuro, eu acho” afirmava o grande pintor.  E essa fala denuncia o menino que Picasso levava dentro de si, que pintava cerâmica usando como base para o desenho a espinha do peixe que tinha comido no almoço, ou fazia fantástica escultura aproveitando uma roda velha e quebrada de uma bicicleta encontrada na estrada durante seu passeio matinal.  O menino traz alegria e descompromisso racional para o trabalho artístico.  No Passeio Público do Rio de Janeiro tem um menino-anjo esculpido num bebedouro (se não me engano de Mestre Valentim) com a seguinte legenda:  “Sou útil, inda brincando”.  Essa é a lei e a sabedoria dos meninos.

Acho que preservando o cálice, domando o cavalo, estimulando o fogo e soltando o menino, o artista está preparado para viver e criar uma vida bela e uma obra útil para a coletividade.
* Aula inaugural da Cal (Casa das Artes de Laranjeiras) – Rio de Janeiro (RJ), em 12 de março de 1984.  Reproduzida de uma apostila do autor.

Até a próxima minha gente!

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