Impor ou aceitar imposições? Parte 3

Então, diante de todo o elenco do circo e cheio de pressão, não contive a raiva e explodi: “se você não està contente com meu trabalho, mande-me embora, BETO ANDRETTA.” Ele foi obrigado a “engolir a seco” e nunca mais disse nada em uma reunião.
Formaçao original do espetaculo OCEANO

Eu estava infeliz. Pela primeira vez, mesmo trabalhando com o que mais amava, me sentia muito infeliz. Não conseguia entender porque era tão maltratado. Depois de um tempo, (o que é pior), comecei a achar que era normal o mau trato da parte de todos.

Claro que reinava um ambiente descontraìdo. Mas, sempre, eu disse sempre, terminava com uma piadinha ao redor de ser protagonista ou não. Eu sentia que minha presença incomodava.

Um dia o Wallace chegou pra mim e disse que não entendia como eu poderia, com tão pouca experiencia, protagonizar um espetàculo num dos maiores circos do Brasil.

Quando eu tive contato pela primeria vez com os “cariocas”, pensei que estava abafando. Tentei brincar o màximo possìvel para descontrair. Entretanto, por falta de maturidade e sem o bom “time” para piadas, acho que fui considerado um “chatão”.

Lembro que o Fausto esqueceu os patins. E pediram para que ele patinasse. Então alguém disse: “pegue os patins ai Fausto!”. Ele explicou que não estava com os patins e se irritou um pouquinho. Vendo isso, bom chato que sou, perguntei milhões de vezes porque ele não pegava logo os patins e parava de frescura. Depois de um ano, ele me disse que me detestou quando me conheceu e que mais tarde aprendeu a gostar de mim. Ou melhor, entendeu que eu não era mal intencionado. Que o objetivo era agradar sempre. Nos tornamos bons amigos. Mas, preste atenção como em pequenìssimas coisas podemos nos complicar durante muito tempo.

Jassy

Um dia, no meio de uma discussão de não sei o quê contra mim, a Jassy se intrometeu e disse não sei o quê me acusando. Fui rude e mal educado, a ponto de pedir para que ela não se intrometesse. Percebi que tinha sido rude e tentei me desculpar. Nem preciso dizer que ela nunca mais foi a mesma comigo. E antes saìamos, conversàvamos, eràmos amigos. Cheguei até a dormir na casa dela uma vez em que fomos a um forrò. Muito bacana. Enfim, podemos passar anos construindo uma amizade e destruì-la em apenas alguns segundos.

Contei esse fato da Jassy, porque vai piorar muito mais no momento em que ela começa a namorar o palhaço Rodrigo Mangal.

Era muito normal encontrar conversinhas aqui e ali. E em todas essas conversinhas, meu nome estava no meio.

Diziam as màs lìnguas que o Mangal era o “informante dos caras”. Era por isso que em toda discussão ele ìa em defesa deles. Por exemplo, ele foi o ùnico a concordar em São José….

Em São José, não tivemos muito pùblico. Me lembro de um espetàculo para 56 pessoas em uma arquibancada para 800. Foi realmente difìcil. Diante dessa situação, HUGO POSSOLO convocou uma reunião e disse que iria cortar gastos. Um gasto desnecessàrio, era o lanche que nos era servido entre espetàculos. Ele foi categòrico: “é o lanche ou um de vocês!” Diante dessa pequenina pressão, ninguém disse nada. Mas não parou por aì, ficou ainda pior depois: “Para Curitiba nòs vamos cobrar os espetàculos que vocês nos devem. Duas semanas. E vai continuar até a cidade de Ponta Grossa.” Para ser mais claro: 1 mês trabalhando sem receber. Ué! Eles foram bonzinhos no natal. Sò não sabia que não deveria me comprometer com previdência, microondas, bicicleta… Ah! Nessa época o Hugo comprou um 4×4.

Du Lamberti, o cara

Antes de chegar ao topo da minha raiva que foi em “Caraguà”, relato um outro acontecimento: nossa viagem de 8 horas em um ônibus fétido a Curitiba. Vergonhoso!!!! Não tìnhamos àgua, não tìnhamos comida. Ou melhor, recebemos 10 reais para comer em um restaurante na estrada onde o prato mais barato era 30 reais. Eles, HUGO, BETO e RAUL, FORAM DE AVIÃO. “Se fode aê elenco!”

Me lembro que eu e o Daciel gostàvamos de curtir uma mùsica alta e tentar embalar a galera conosco. Na recepção do hotel cheguei ouvindo uma salsa para dar umas risadas. EU SOU UM PALHAçO. PRECISO ME COMUNICAR COM O MUNDO QUE ME CERCA. Em uma roda para reclamar não sei o quê de mim, o RAUL disse que eu não respeitava nada e que chegava ouvindo mùsica alta na recepção. Detalhe que eu não fui o ùnico a escutar mùsica alta, mas ele fez questão de falar na “roda” mais uma vez que eu era um funcionàrio displicente e que olhava sò pra mim.

Você jà viu o filme “O CIRCO” com Charles Chaplin? O Chaplin é o protagonista do circo. Sò que ele não sabe a força que tem. No filme o patrão se aproveita dele ao màximo…

Nos ensaios começaram uma onda de apelidos. E como o Mangal tinha o microfone para falar o que quisesse, aproveitava para zoar o màximo que podia e “montar em minhas costas”. Sacanagem!!! Uma vez que não posso me defender, zoar, brincar também. Sem reação eu sò podia tentar ser legal e aceitar. Mas, é claro que o orgulho batia. “Ei Smigol! Ei Justinrica (mistura de Justin Timberlake com Tiririca)”… Era engraçado, eu até gostava. Mas não foi tão legal quando perdeu um pouco o limite. QUando até os patrões começaram a se aproveitar e me zoar. Quando ele começou a levar para a cena…

Tudo pronto para o espetàculo começar em Caraguatatuba: Casa cheia, patrocinador, amigos na platéia… Chegamos a seguinte cena: “ei menino espere!”. Ele disse: “ei Smigol, espere!” Fiquei puto mas não deixei transparecer. Mas caraca! Isso não podia ser levado para a cena! Estàvamos numa “linha de repressão”. O improviso jà não era tão bem vindo numa cena considerada séria. E, cà entre nòs, bastidores devem ficar nos bastidores.

Charles, o negao gente boa

O BETO ANDRETA apareceu. Reunião depois do espetàculo.

O cara veio para dar uma levantada no elenco. Mas, ele estava mal humorado e saiu dando “sapatada” nos meninos dos patins (“os moreninhos” que ele detestava – ele soltou essa pra uma pessoa e eu escutei de relance) e em mim ele fechou com chave de ouro, (na frente de todos, é claro):

_ “Faxinha! Por que na cena do polvo você entrou pela direita e não pela esquerda? Ah! Você entrou sem sapatilha porquê?”

_ Beto, a sapatilha eu “comi bola”. Me desculpe! Eu esqueci.

_ Esqueceu? Quantos espetàculos você jà fez aqui? Como assim esqueceu? Você não é pago para esquecer. Se eu esquecer de te pagar no mês que vem? E o polvo? Aqui você tem um diretor artìstico. Ele se chama HUGO POSSOLO. Eu disse que ele se chama HUGO POSSOLO, não Faxinha. Então, quem te deu o direito de fazer o quê você bem entende aqui no Oceano. Um dia, quando você tiver o seu circo, você faça a SUA VERSÃO DE OCEANO. Por enquanto, continue fazendo o que EU MANDO. Por que você entrou pela direita na cena do polvo?

_ (com voz estremecida e com medo de falar) O Hugo me deu a liberdade de entrar por onde eu quisesse…

_ Ah! (manja desapontado de chefe? Tipo pensando: ele me pegou nessa? Mas respondeu bem debochado na sequência) Se o HUGO te deu a liberdade, ok. Eu não lembro dessa liberdade. Mas eu quero que você entre amanhã pela esquerda.

Como o clima estava insustentàvel, decidi abrir a boca. Era muita pressão. Mas fui polìtico ainda: “Beto, o texto do espetàculo é “ei menino, espere!”, e não “ei smigol, espere!”. Não acho legal levar para a cena brincadeiras de camarim. Estão me expondo a toa.”

Ele respondeu com “o jeito Beto Andreta de ser”: debochado, irônico e dando risadinhas da minha cara. Mas claro que, como eu tinha falado do Mangal, ele foi brando e disse sorrindo: “Ha! Ha! Ha! Aì não pode né Mangal! Smigol? Hahahahha!”

Todos começaram a rir. Fiquei puto. Engoli a seco e não disse mais nada.

Fim da terceira parte…

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3 Comments Add yours

  1. Dani Vasconcelos diz:

    Parabéns pelas publicações e por sua iniciativa,só ainda não havia visto por esse ângulo,sorry…
    Tenho lido alguns livros semelhantes ao seu,e é possível aprender muito com ambos os conteúdos,espero que o seu seja publicado logo,afinal aconteça o que acontecer o importante é aprender,sejam com os erros ou não,ficar parado ou passar para ação?
    Beijo,sucesso.

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  2. Dani Vasconcelos diz:

    Oie!saudades hehehe,não pude deixar de ler e comentar…será que vale a pena remoer o rancor,querido?Não fique preso a isso ou melhor,não permita que esses rancores atrasem de certa forma a sua vida,enquantos muitos devem estar tocando suas vidas seja lá de qual forma for,vc fica aí brabo,gastando seu preciso tempo remoendo isso em vez de investir + ainda e aperfeiçoar tudo o q vc tem de melhor.Como já te disse inúmeras vezes e muitos já disseram:vc é um sucesso!
    Continue tocando sua vida sempre em frente,e deixe o que te ira para traz!Afinal vc superou tudo isso e está onde está por pura determinação,quem foi que disse que a vida seria fácil?não é mesmo?!precisamos de jogo de cintura na vida e confesso que nem sempre tenho,rsrsrs
    Um Beijão enorme,fique com Deus,pois Este jamais te decepciona

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    1. Obrigado pelo comentario Dani. Adoro quando vc comenta. Mas hoje, pense comigo:

      Se você tivesse a oportunidade de mudar o que està a sua volta, você mudaria ou deixaria para la?

      Claro que o que passou, passou (ao menos comigo). Quero dizer que, se eu tiver a possibilidade de fazer pessoas pensarem, estarei contente.

      Quantas vezes somos humilhados em nossos trabalhos e aceitamos sem nada dizer durante anos? Porque? Isso não é justo, não é legal.

      Essa serie de textos é para que as pessoas parem e pensem: até que ponto devo ou nao aceitar determinadas coisas? Eu precisava do trabalho, aceitei até o fim. Mas pensava todo dia em algo melhor. Ou seja, devemos aceitar ou aceitar mudar?

      Diario de um palhaço sem o nariz vermelho, é um pequeno livro dedicado a todos que estao começando a fase do trabalho, ou seja, que ainda nao sabem exatamente o que querem. Minha intençao é, com exemplos de minha vida, dar alguns atalhos para facilitar esse triste e doloroso caminho que se chama “dia a dia”.

      A discussao esta aberta e, se fosse facil, venderia na padaria eheheh

      Grande beijo querida.

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