8 – Consideraçoes sobre o festival (Aurillac) que achei que mudaria minha vida

Foram quase 4 anos de espera! 4 anos para que estreássemos em um festival. 4 anos de trabalho pesado seriam finalmente recompensados. Estávamos programados para um dos maiores festivais de teatro de rua da França: o “Festival Internacional de Teatro de Rua de Aurillac”.

O nome pomposo e extenso dá até medo. Em minha inscriçao, (feita pela internet e aceita pelo comitê do festival), decidi que deveria “exigir o menos possível”, mesmo me inscrevendo como “companhia de passagem profissional”. Näo queria causar um mal estar logo em minha primeira passagem.

Esperei que, ao enviar algumas fotos do meu show, eles entenderiam que não estávamos para brincadeira. Estávamos lá porque levamos muito a sério o teatro de rua, pois é “dali” também que tiramos nosso sustento.

Fomos recebidos de maneira, digamos, “calorosa”. Mas, estávamos programados. Isso era o mais importante. Segundo muitos artistas, Aurillac não é um festival para “ganhar dinheiro”, e sim, para promover-se: o público assiste a espetáculos o dia inteiro. Sendo assim, você tem que ganhar de verdade a simpatia do público para que caiam algumas moedas ou notas em seu chapéu. Mas é claro que, o mais importante é ser visto por um PROGRAMADOR: Se um assistir ao seu show e gostar, você pode mudar sua vida da noite para o dia. Isso significa muitas datas programadas e muita grana que pode entrar nos cofres de sua empresa.

O Festival de Aurillac, é conhecido também pelo “espírito aberto” da vila. Isso significa, em termos mais rústicos que, você pode beber e “tocar a zona” na rua. Na França, é proibido beber em via pública. Mas, durante o festival, tudo fica permitido. Sendo assim, o que os franceses chamam de “zonar”, ganham espaço e invadem a vila com seus cachorros e cerveja nas mãos. São aquelas pessoas que não estão nem aí. Que já desistiram. Que aceitaram uma condição de “perdedor aos olhos da sociedade” para ser livres. E que, enquanto um artista de rua se apresenta, entram no meio do show e nao respeitam; que falam alto; que interrompem; que bebem durante o espetaculo e que, com imensa maestria, fazem todo mundo ficar com medo e em alguns casos, forçam algumas pessoas a partir.

Já estive em algumas situações onde tive que parar o show para lidar com “esse tipo de problema”. Sou a favor da arte para todos. Acredito que a arte tem um poder de transformação sobre todo o ser humano. Mas, infelizmente, se o  ser humano não estiver disposto ou aberto para “trocar com o artista”, a viagem é de “mão única”. Deve existir ao menos o questionamento interior. É aí que mora a arte e o artista: na confusão; no caos. Somos nós que devemos propor soluções para mudar o mundo à nossa volta. Infelizmente, algumas pessoas não estão nem aí.

Como não exigi muito, passei pelo que nós brasileiros chamamos de “perrengue”: fui programado para me apresentar em uma praça onde era o ponto de encontro e concentraçao de todos os “zonares”. Isso significa que, enquanto alguns com seus cachorros se deitavam na rua, outros gritavam e tomavam banho na fonte da praça onde eu deveria me apresentar. Catastrófico em se tratando de um Festival Internacional!!! Eu perdi muito tempo para montar o meu dossiê. Perdi tempo pra caramba! E, enquanto me apresentava, era uma banda de música à minha direita, outra a esquerda e um outro show logo à frente. Desorganização total!!!

Mesmo com todo esse bordel a meu redor, durante dois dias, consegui um público excelente. Começamos a fazer fazer barulho, no bom sentido, é claro.

Eis que no segundo dia, uma tragédia aconteceu: uma chuva repentina de granizo. Minha cena toda montada: luzes, som, acessórios… 10 mil euros em material. Quase perdemos tudo. Enquanto sofríamos para tentar salvar o que podíamos, as “super pedras de gelo” nos atingiam de todas as maneiras. Duas meninas nos propuseram ajuda. Aceitamos, afinal, estava tudo sendo “jogado fora” pela mãe natureza. Vi, naquele momento, a frivolidade do ser humano, sobretudo dos queridos mendigos que eram maioria na praça: ninguém se prontificou a me ajudar enquanto o céu desabava em cima de nós e nosso precioso material. Pelo contrário: quando a chuva parou, algumas pessoas até passaram em tom de gozação pelo nosso tapete de cena, todo encharcado, que causou imensa revolta em mim e quase provocou uma briga sem precedentes. Estávamos perdendo tudo, inclusive o controle. Acreditamos que, você pode e deve ser o que quiser, mas deve respeitar o próximo. Triste e cabisbaixo, comecei a separar o material e pensar em uma forma de levá-lo até o ginásio oferecido pelo festival para guardar os materiais de cena de todos os grupos.

Tive sorte que, antes dessa temporada começar, conheci a Carolina. Tudo aconteceu muito rápido. Em algumas semanas já estávamos fazendo planos para a temporada 2012. Decidimos que passaríamos por algumas cidades e que, como bons saltimbancos, se fosse bom ficaríamos, caso contrario, seguiríamos viagem como todo bom e velho circo.

Estivemos em Grau du Roi, Montpellier, Sarlat, Paris, St. Malo, La Rochelle, Rennes, Avignon e Aurillac. Acredito que, essa temporada, me fez entender que, quando estamos muito confiantes, levamos o que a “Maria levou atrás da horta”. Sem exceção, todas as vezes em que pensei: “vou me dar bem”, literalmente eu “tomei”. Essa temporada me fez entender que, não importa se você é bom ou ruim: na rua, tudo é sempre imprevisível.

Aurillac, Sarlat e Paris, me fizeram repensar conceitos de artista e ser humano: “por que?” Infelizmente, ainda não tenho respostas. Apenas caminhos para talvez entender algumas coisas. Sei também que, trabalhei muito todos esses anos com um único propósito: entreter e fazer pensar aquele que é a razão de minha existência: o público.

Fui expor à organizaçao do festival o que estava acontecendo. Escutei que era assim mesmo. Que até pensaram no assunto, mas não poderiam fazer nada. Me propuseram uma praça alternativa. Aceitei, mas disse que, isso não mudaria o foco principal de toda essa discussão: o privilégio deveria ser dado aos artistas, que deveriam ser preservados e não dar uma liberdade exagerada a mendigos que utilizavam a imagem do festival para fazer o que bem entenderem. Escutei apenas “você esta com a razão”.

No terceiro dia, estava em uma espécie de estacionamento de supermercado. E não tinha circulaçao de pessoas. Fiquei desesperado!!! Mas montei toda a minha estrutura e disse a Carolina: mesmo que eu tenha que fazer só para treinar, eu farei. Comecei com 4 pessoas. Terminei com 200. Ví que tinha feito um milagre. A praça era imensa e infelizmente, as pessoas não circulavam naquela rua. Seria necessário no mínimo dois dias de divulgaçao e publicidade na vila para trazer as pessoas. Não uma hora e meia!!! Isso mesmo!!! A organizaçao do festival me ligou e disse que eu poderia me apresentar em uma praça alternativa. Respondi que sim. Acrescentaram que eu deveria fazer em uma hora e meia. Somente minha cena leva 1 hora pra instalar. Isso significava que eu estava totalmente atrasado e sem público.

Antes de partir de Aurillac, encontrei um outro palhaço que conheci em Paris que me disse: “passei pelos mesmos problemas aqui há 6 anos. Decidi que deveria voltar para tirar a má impressão. Mas, aprendi que não poderia só vir por vir. Fiz algumas muitas exigências e nesse ano, tudo se passa maravilhosamente bem. Naquela época, eu me senti tão mal que comecei até a me questionar enquanto artista.”

Suas palavras caíram como uma luva pois estava passando pelo mesmo problema.

Agora, voltamos de viagem. Eu, Carolina e seu pequeno filho. Estou pensando em tudo de positivo que tivemos na temporada. Mas é claro que, são os problemas e questões que me farão avançar. Não vou mentir que estou me sentindo um lixo, (pois sou muito perfeccionista), e questionando se meu espetaculo é realmente bom. Que otimo! Talvez esse desafio, me coloque de volta ao jogo e me faça, como bom jogador, pelo menos tentar dar a volta por cima.

 

 

Raul Veiga, presidente e fundador da Milho Baunilha,

se apresentou no festival Internacional de Aurillac – 2012

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