9. O mundo dá voltas

Ninguém é campeão apenas com vitórias.


Capture d’écran 2015-05-03 à 18.10.48Há 3 anos chegara para minha primeira aula de trampolim. Estava eufórico como um menino de seis anos em seu primeiro dia na escola.

No dia anterior, tinha ido ao ginásio para pedir informações sobre o curso. A treinadora, uma mulher um tanto mau humorada me disse assim: “Você faz circo. Não precisa pular no trampolim.”

IMG_0458E foi com essa “recepção acalorada” que decidi ficar ali “quietinho” durante todo o treino. Assisti duas horas sem perguntar nada. Apenas admirei e sonhei em um dia poder fazer alguns daqueles movimentos.

Naquela ocasião, alguns atletas mais avançados estavam treinando. Entre eles, um russo. Minha nossa! Quando o vi pela primeira vez, fazendo todos aqueles movimentos espetaculares pensei comigo: “Se conseguir fazer 20% do que esse cara faz, estarei satisfeito.”

E a vida é mesmo uma “caixinha de surpresas”! Mas para isso, você deve querer abri-la. Não importa o que os outros digam ou pensem, você deve seguir o seu caminho sem se deixar levar.

Se tivesse parado no primeiro comentário da treinadora, não poderia dividir neste texto que, este que vos fala, já conseguiu medalha de bronze no campeonato nacional francês. Nada mal para alguém que “não precisava PULAR no trampolim.”

IMG_0299Enfim, três anos de treinos, preparação física, acidentes, dores, lágrimas, conquistas. Milhares de conquistas pessoais! A maioria delas na sala de treino, quando não tinha ninguém olhando. Aquele momento em que você se arrisca um pouquinho mais. Aquele momento em que você decide: “Okay! Vou fazer esse movimento nem que eu tenha que me quebrar inteiro hoje.”

Então o tempo passou e o russo parou de treinar. Não totalmente, mas frequentemente. O que antes nos víamos todos os dias, foi tomando conta para 4 vezes por semana. 3, 2, 1… Até que ele aparecia “vez ou outra”. Quando perguntei porquê ele não vinha mais aos treinos, com uma tristeza no rosto me confidenciou: “Sou pai de dois filhos e tenho que trabalhar. Minha esposa não gosta que eu venha muito aqui. Então para evitar brigas, apareço de vez em quando.” 

Nesse dia fiquei chocado. Mas vi e entendi muitas coisas ao mesmo tempo:

  1. Você não pode deixar os outros decidirem o que é melhor pra você. Sua felicidade depende disso;

  2. Se você não amar de verdade aquilo que faz, você será apenas bom. A excelência nunca chegará com você se dedicando apenas o que foi combinado;

  3. Se você parar de treinar, de melhorar, de se aperfeiçoar, não importa quanto talento tenha, uma hora seu corpo não responderá aos pedidos do seu cérebro;

  4. Você NUNCA pode desistir no primeiro “NÃO”.

Essa semana, enquanto treinava, o russo apareceu. Comentamos com ele, (eu e a treinadora), meu progresso. Ele ficou para assistir ao treino. Acho que o inspirei pois no dia seguinte ele estava lá pronto para treinar.

2015-10-12 18.08.30Me espantei: ele não conseguia fazer 20% do que EU estava fazendo.

Poderia ter ficado feliz. Poderia pensar: “Ganhei!” Não vou negar que tive uma sensação de dever cumprido. 3 anos depois havia finalmente conseguido concretizar mais um objetivo: fazer muito mais do que os 20%. Mas fiquei também com medo. Medo do que poderá me acontecer. Medo de não poder continuar. Medo de não avançar. Medo de envelhecer e ter que parar. Caraca! Quantos medos!!!

Sem saber o que a vida me reserva, me resta apenas continuar caminhando. Ou melhor, pulando.

Raul Veiga – França, Outubro de 2015


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Enquanto escrevia este texto, escutava esta música:

Até a próxima!Logo MilhoI love