2. Entendendo o Publico da rua

“As vezes você esta no lugar errado, na hora errada.”

Quem nunca esteve onde não deveria estar? Quem nunca se perguntou: “Jesus, o que é que estou fazendo aqui?”

Pois é…

Depois da crise, você se pergunta milhões de vezes qual caminho deve seguir. Eu, artista e criador que busca a perfeição em tudo que faço, pensei muito a respeito. Conclui que o melhor caminho seria adaptar, para cada evento meu espetaculo. Isso pode parecer obvio, entretanto…

Com o numero que tenho (onde faço equilibrios em uma “banquilha”), não importa muito se faço cena ou não. O publico esta pouco se lixando se você quer dar um pouco de arte, ou um pouco de técnica, ou um pouco de qualquer coisa. Na rua você precisa impressionar 100%. No meu caso,  o apice do espetaculo é fazer o equilibrio e, ficar equilbrado em somente um braço. Mesmo que por 3 segundos, o publico vai ao delirio.

Mas, se eu simplesmente montar na banquilha* (*estrutura circense para fazer equilibrios com as mãos) e “parar de mão”, assim, sem uma “ceninha”, sem um antes, nao faço um bom “circulo”. Quero dizer, não faço pessoas se acumularem ao meu redor para saber o que é que eu estou tramando enquanto artista. E fazer por fazer, o publico para, da aquela olhadinha e vai embora. Quero dizer que, em um caso assim (fazer por fazer), podemos esquecer o chapeu.

Mas, não penso na “ceninha” so para montar um bom “circulo”. Penso na “ceninha” como parte integrante do espetaculo. Para mim, mesmo 10 minutos com o publico, pode ser considerado um espetaculo. Para isso, você tem que acreditar nisso: “Eu tenho começo, meio, e fim. Eu tenho um show.”

Então eu sai da crise. E minha cabeça estava a 1200 km/h. Cheio de idéias, precisava coloca-las para fora. Em todo tempo lembrava da frase de uma criança que me indagou certa vez: “Com licença senhor Palhaço. Por acaso o senhor ira fazer outra esquete?” Eu respondi que não. Que para aquele dia, tinha reservado somente um numero para o publico. Ele agradeceu e saiu um pouco triste. Como sempre tenho um truque na manga, tirei da minha mala uma magica e perguntei se poderia apresenta-la a ele. Ele euforico disse que sim. Ao terminar, agradeci e fui embora. Ele por sua vez voltou e fez questao de me dar uma moeda.

Na minha cabeça, hoje, tento repetir o mesmo espetaculo rigorosamente. Buscando, é claro, aperfeiçoar o que ja esta bom e corrigir o que penso estar mais ou menos. Essas são lições de Disney e Circo Roda Brasil.

Essa criança me fez repensar na possibilidade de fazer 3, 4 ou mais variações do mesmo espetaculo para dias em que fico no mesmo local. Me fez repensar que posso fazer meu numero de malabares na rua. Afinal, tudo que treinei ate hoje não pode ser jogado assim na lata do lixo, mesmo que para o publico malabares ja esteja passado.

Ha! Ha! Ha! Do que é que estou falando. Passado? Eu chego como Palhaço MILHO BAUNILHA na rua, com nariz vermelho.

A primeira impressão que tenho do publico, não importa onde é:

(braços cruzados ou olhar de desdém) OLHA O PALHAçO!

Talvez as pessoas tenham algum preconceito com o Palhaço porque muitos usaram a mascara de forma errada. Eu não julgo ninguém. Simplesmente estou pagando o pato por tentar reviver uma arte que na rua é considerada meio-morta. Você não vê mais um Palhaço fazendo espetaculo na rua. Mas vê Palhaço no farol vendendo bala, limpando para-brisa, pedindo esmola e fazendo caridade. Existe a banalização da mascara. Não se compreende mais que o nariz serve para revelar a sua alma. Aumentar os seus defeitos. Mostrar as suas imperfeições. Aquele que se esconde na mascara do Palhaço esta se enganando. O Palhaço não esconde, ele mostra. Mostra o que é, porque ele é assim. E no mundo, mesmo que você seja imperfeito, sempre existira ao menos uma pessoa que gostara de você. Assim é o mundo: para um sorrir, o outro tem que sofrer. Porque sera que o publico ri quando um Palhaço cai no chão?

"MIGUEL RAMIREZ, EL TORERO" na Feria de Nîmes, França

Seguindo o conselho da criança, recriei toda a “mis-en-scène”  para a “Feria de Nîmes” (festa tradicional espanhola onde o touro é a figura principal). E como eu me diverti!!! Primeiro e importante passo para um artista fazer qualquer coisa: DIVIRTA-SE!!!!

Deu trabalho. Muito trabalho. Mas fiz um espetaculo tradicional. Com musicas tradicionais. Fiz com carinho. Com amor. Com profissionalismo.

Mas…

A “Feria” é um evento onde a maioria dos “convidados para a festa” são estudantes com fama de bêbados. Então comecei a chegar mais cedo. Aproveitar enquanto a “zona” não começava. Por alguns instantes até deu certo. Consegui fazer meu circulo e minha grana. Mas, estranhamente via o publico indo embora muito rapido quando falava do chapéu. Pensei: “Ué! Foi tão ruim assim? Nem esperaram eu agradecer?”

Ai você para. Pensa. Decide fazer de outra forma. A mesma recepção e final. E você muda de novo e… O mesmo problema. “Perai”! … … … (pensando) “não existe publico ruim, existem atores que não chegam la…”

Sabe quando as suas verdades “caem por terra”? é mais ou menos assim: você acredita em Papai Noel. E num determinado instante você é obrigado a “desacreditar”.

Sei trabalhar para o “baixo publico”. Aquele que gosta de safadeza. Que gosta do escatologico. Que gosta do que não pode de jeito nenhum. O baixo publico é aquele normalmente composto por bêbados adolescentes. Não sei o que se passa na mente dos adolescentes hoje. Não existe mais respeito. Se não respeitam os proprios pais, porque respeitarao um Palhaço na rua?

Ontem e hoje eu sofri muito com a falta de respeito do “baixo publico”. Entravam no espetaculo, jogavam os objetos de cena, queriam aparecer. Como ja tive boas experiências, aprendi que o melhor é esperar. Quando alguém esta disposto a “jogar” com você, espera o melhor momento para se fazer perceber e pedir: “posso?”. Quando alguém quer aparecer, ser mais do que o artista, ele entra com tudo. Fala alto, grita, xinga, manda você calar a boca, fala que pode fazer mais, te atrapalha... Enfim, tudo que ele puder e não puder pra te foder ele fara. (Desculpem, mas não achei outra palavra.)

E com o “baixo publico” ao seu redor, jamais o “bom publico” se aproximara. Quem compõe o “bom publico”? Normalmente crianças e velhinhos. E os adultos? Esses estão preocupados demais com os problemas. Não costumam dar muita atenção. Na verdade, para os adultos, a historia muda quando eu faço o primeiro equilibrio. é ali que entendem: isso ai é trabalho também. A prova é que uma dama chegou até mim e disse: “via pela tv e achava que era facil. Mas, com você aqui, e apresentando pela 5ª vez seguida... Assim, ao vivo, é muito emocionante!” Pelo menos para ela, o conceito do ser artista havia mudado.

Na mesma rua encontrei vendedores de chapéus, luzes e comidas. Nada de “comidas tradicionais”. Fiquei me perguntando: “esse evento é destinado para qual publico afinal?”

No final do primeiro dia de trabalho (quinta), fui a um quiosque comer. Um sanduiche: 6 euros. Uma bebida: 3 euros. Isso significa que…

Eu ja fui jovem. eeheheh falou o velho né?

Muitos quiosques ou “stands” tocam musicas eletronicas e da atualidade. Mas pera, pera, peraê. Esse é um evento tradicionamente espanhol onde o touro é a figura principal.

Que nada! Agora, esse é um evento destinado ao “futuro da França”: os jovens que bebem até cair, fazem o que der na telha e gastam seu dinheiro sem nenhum pensar.

Mas, para onde vai o “bom publico”? Então é preciso mover-me. Afinal, hoje, com 25 anos, eu adoro uma festa. Adoro dançar. Mas, também gosto de respeito. E a “Feria” não é um ambiente muito respeitoso. Se você quer ter uma noçao real do que é esse evento, se você habita um bairro onde nele tem carnaval de rua, pronto. Essa é a “Feria”.

Mas, continuo a procura do “bom publico”. Então decido andar com a bagagem artistica. Encontro um ponto. Um lugar. Aparentemente tranquilo. Não terei problemas? Duas viaturas policiais a minha esquerda… Ai! Ai! Ai! Quando olho para eles, soltam um riso amigavel. Ok! Primeira etapa, concluida. Resta so falar com uma tiazinha e sua barraca que esta nao muito, mas um pouco proxima de mim. “Ok! Faça ai seu show. Nos dê alegria!”

Iupiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!

Então eu aguardo dois minutos para analisar o publico. E vejo familias e familias caminhando. Ou seja, achei! Achei o “bom publico”. E comecei o espetaculo… Pah! Sucesso de publico e chapéu. Segundo espetaculo. Pah! Outro sucesso. No finzinho interrompido pela falta de musica  pois, quando estava na “rua do inferno”, era obrigado a colocar a “musica no talo”, fazendo com que o amplificador acabasse sua bateria interna.

Mas que diferença apresentar para pessoas educadas! Tive tempo para falar do chapéu. Poderia mesmo fazer uma dissertação sobre o uso do chapéu para arrecadar dinheiro. Não foi preciso. Esse publico entende que, o que estou fazendo ali não é somente brincadeira de Palhaço. é um trabalho para fazê-los sair, mesmo que por alguns instantes desse mundo maluco e cruel que tende a ir cada vez mais a caminhos mais estranhos e obscuros.

Depois de tudo isso, o que me resta agora é simplesmente o desejo louco de voltar àquele lugar maravilhoso onde a maioria educada reprimia os baderneiros de plantão.

Minha critica aqui é simples: respeito é bom e todo mundo gosta. Até o Palhaço.

correção ortografica: Wany Martinho

atenção: meu teclado é francês e por isso não é possivel acentuar algumas palavras. Por isso, a correçao da professora se da nos casos de concordância.

“Texto corrigido com amor e respeito ao Palhaço Milho Baunilha!!!”

(Wany Martinho)


6 Comments Add yours

  1. Dani Vasconcelos diz:

    Parabéns!vc nasceu para ser um sucesso!!!Na escola da vida estamos sempre aprendendo,não é mesmo?tanto nos bons momentos,e mais ainda nos mais difíceis.É muito bom ver pessoas como vc q,não desistem no meio do caminho apesar dos desafios e consegue extrair das dificuldades,sempre uma lição e ver com novas perspectivas.Isso só comprova q não podemos passar pela vida sem aprender,e com humildade,vencer(espero q vc ñ ache q humildade é coisa de pobre,rs),pois o vento não quebra uma árvore q se dobra,pois diante de algumas circunstâncias é necessário q nos ‘dobremos’,para q possamos resistir e vencer no tempo oportuno.
    Um Forte Abraço,Deus t abençoe e ilumine sempre!
    BJU,Dani

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    1. Como vc é linda!!!
      Suas palavras (em resposta ao meu post) traduzem o quanto tudo isso é importante para mim. é dificil, é doloroso. Mas quem disse que seria facil???

      Beijao Dani

      Milho Baunilha :o)

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  2. Daah diz:

    Voce eh incrivel admiro muito sua historia Raulzito! torco pra que cresca sempre. 🙂

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    1. Valeu Dah. Agora, crescer eu nao sei se conseguirei mais porque tenho 1.68 e meio com 25 anos. Quer dizer, ja era! :o)

      “Dahzinha”, acredite, agora vc ja faz parte dessa historia.

      Beijao

      MILHO BAUNILHA

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  3. Claudinha diz:

    Menino Raul…. devo confessar q adoro ler-te!!
    Parabéns por conseguir expressar em palavras um pouco do que vive e sente!!
    Digo “um pouco” por achar que ainda tem muito a expressar! será que estou certa?
    Parabéns pela atitude!
    Parabéns pela persistência!
    Parabéns por conseguir o seu propósito! Por conseguir levar um pouco de alegria a quem passa, por fazer com que as pessoas se esqueçam por alguns minutos as angústias que levam consigo!
    Parabéns por ser o menino lindo que és!
    Tens o meu carinho incondicional! Sabia?!
    Beijo e abraço forte cheio de carinho 😉

    Claudinha

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    1. “Clau”, você é uma daquelas pessoas que valem a pena ser amigo.

      Beijo grande!

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